sexta-feira, 30 de março de 2012

Dois sonhos

Quinta-feira, 29/03/2012

Levanto-me da cama e sigo em direção ao banheiro. Quando lá chego, a porta se encontra fechada. Sem saber se a mesma está de fato trancada, experimento bater e esperar: não há resposta. Abro-a lentamente e flagro um menininho indiano, de pé, com ar preocupado, olhando em direção à porta. Com uma mesura, me desculpo e me afasto, ainda mantendo minha frente voltada a ele, compreendendo que o havia surpreendido em momento inoportuno; mas a criança anda, decididamente, em minha direção e, ao que me ultrapassa no corredor, olhar fixo em seu caminho, me deixa a entender, com modos autoritários, que devo segui-lo até meu quarto. Ele para diante da minha cama e deixa implícito que, em respeito a sua privacidade, devo permanecer ali até que ele tenha concluído o que estava fazendo quando o surpreendi no banheiro.
                Sento-me à cama e, ao que estou em vias de me recostar, o pequeno indiano, já se retirando do quarto a passos largos de volta ao banheiro, resmunga para si mesmo, em volume suficiente para que eu possa também escutar, algo cujas palavras exatas agora já não me recordo, mas que em seu sentido poderiam significar o mesmo que “Eu não preciso aguentar esse tipo de coisa!”
                Seu comportamento autoritário em conjunto dessa derradeira desfeita, me removem de meu temporário estado letárgico e dócil, vertendo conformidade em ira. Quem é este fedelho que, hospedado em minha própria casa, pensa poder impor suas necessidades à frente das minhas e ainda se sair com tamanha petulância!
                Alcanço-o já à porta do banheiro e agarro-o facilmente pelos ombros estreitos, desprevenido e distraído que estava em sua arrogante autoconfiança. Retendo-o com um empurrão rancoroso, ultrapasso-o e fecho a porta atrás de mim, entre nós, trancando-a em seguida.
                Lá de dentro, já me aliviando, posso ouvi-lo reclamar com sua mãe e a minha, distorcendo a história em seu favor. Preocupa-me ter de desmenti-lo com justificativas e palavras bem escolhidas de modo a ser capaz de transferir os fatos de volta à justiça e em meu favor, uma vez que seu apelo sob caráter infantil constitui, sob meu ponto de vista, considerável vantagem sedutora.


Sexta-feira, 30/03/2012

Uma raça alienígena está invadindo o meu planeta-natal. Acuado, meu povo se refugia em uma base até que seja concluída a construção de nossa nave de fuga: uma verdadeira metrópole móvel, com autonomia para cruzar o espaço durante séculos, até que encontremos um novo lar para nos estabelecermos.
                A impressão que fica é de que a base onde agora nos encontramos é uma solução improvisada, algo talvez descoberto ao acaso em meio a essa paisagem de árvores altas e de pouca folhagem, de horizonte avermelhado como um contínuo por de sol.
                A rotina diária parece consistir em montar defesas e barreiras para conter as imprevisíveis investidas dos belicosos aliens e tomar parte em expedições na superfície do planeta a fim de obter recursos para essas mesmas defesas e, mais importante, para a conclusão da construção de nossa espaçonave.
                Durante quase todo o tempo, sinto o enorme peso de uma responsabilidade que não consigo cumprir, a responsabilidade esmagadora de dar alguma contribuição inteligente e útil aos demais de meu povo, que ao meu ver parecem ineficientes. Embora essa consciência de que seus métodos são pífios diante da ameaça que enfrentam, não consigo, eu mesmo, superá-los com qualquer contribuição, e permaneço estagnado em constante angústia. Suas armadilhas toscas feitas com lanças douradas e canos de PVC encontrados ao acaso, embora pareçam ineficazes, me dão a impressão de afigurarem como a mais adequada escolha possível dentro das parcas possibilidades que se nos apresentam.
                E eu continuo sem contribuir.
Enquanto penso em organizar um pequeno exército para alargar nossas fronteiras e ganhar tempo em momentos de estabilidade, a consciência da responsabilidade que não desejo assumir sobre a vida de outros homens me desencoraja. Este seria um território onde eu jamais havia pisado e, diferente do modo como estou acostumado a proceder com tudo aquilo que ainda não sei fazer, nesse caso não poderia me dar ao luxo de falhar até que o resultado fosse satisfatório.
                Conforme os dias passam, um barulho e uma luz vinda de cima parecem se tornar cada vez mais evidentes.
Então, as pessoas começam a desaparecer sem que eu consiga me dar conta para onde estão indo, como se estivessem se retirando às minhas costas, deliberada e metodicamente.
                Quando me percebo só na base abandonada, o barulho muda de posição e a luz azul incide no galpão vinda de outra direção, através das grandes janelas translúcidas, largas como as laterais de um aquário para o leviatã. Saio apressado para ver o que sucede lá fora.
Enquanto no solo o inimigo aperta o cerco, no céu um gigantesco círculo metálico reflete, em sua base, o horizonte róseo. O casco pintado de branco é cravejado de pequenos pontos luminosos intermitentes azuis-claros, que circundam o centro, de onde emana uma luz sobre a terra em um feixe que atinge o solo sem esmaecer.
                Em desespero, corro em direção ao círculo, buscando posição abaixo da linha de sua luz. Em resposta, ele desacelera, como que percebendo a presença de um dos seus, prestes a ser esquecido, como se suas entranhas de metal fossem capazes de compreender e se comover diante da solidão que se abateria sobre aquela pequena figura ao ser abandonada como única detentora, naquele lugar, de um legado que agora se destinava a rumar para as mais distantes paragens de um oceano de absoluta escuridão.
                Com meu corpo agora suspenso no ar, o grande círculo branco-rosa cresce ante um fundo de nuvens em chamas. Ao divisar, então, cada pequeno componente que, em conjunto denunciavam sua verdadeira natureza mecânica, sou cegado por um branco puro. O silêncio é absoluto.
                A brancura se dissolve revelando o interior frio, estéril, cinzento e seguro do meu novo lar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dark City


faces unknown
grins to no one
empty beliefs
promisses in the void

whispers and shadows
gossips and dreams
wait for tomorrow
answers blown in the wind

walking alone in the streets of
this dark city
dark city

hoping my steps will take me home
I wish they do

sunset for blind eyes
efforts in vain
tree falls in forest
memories lost in rain

whispers and shadows
gossips and dreams
wait for tomorrow
answers blown in the wind

walking alone in the streets of
this dark city
dark city

hoping my steps will take me home
I wish they do

stumbling my way across the sidewalk
does it matter if I'll make it through?

And even if I ask for directions
I know I'll end up nowhere

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Mamihlapinatapai

E subitamente o ônibus deu aquela freada que joga todo mundo pra frente. “Alguma mal comida” – pensou o primeiro – “protestou lá de trás.”, mas nem olhou pra ver a cara da sujeita. Foi logo dizendo ao segundo:
- Isso aí é só porque o ônibus parou pra pegar passageiro. Se fosse ela que estivesse pra subir, essa merda podia lançar o velho do primeiro banco para-brisa afora que ninguém ia ouvir o menor cacarejo.
                Estavam os dois em tempos de faculdade. Algum compromisso desmarcado, ou coisa do tipo, de modo que o primeiro voltava pra casa fora do horário habitual e encontrou o amigo por acaso.
                - Ou então – continuou –, defenderia o motorista acima de qualquer suspeita, caso o ônibus tivesse parado de repente por ter fechado um carro qualquer. Mulher burra do caralho!
                E o outro continuava calado, só escutando.
Daí entrou uma garota, magrinha, e se sentou um pouco mais à frente. E ao que o segundo fez perceber ao primeiro a presença desta com um gesto sutil, este em resposta deu seu parecer:
                - Bem bonitinha, das que pode escolher quem quer. Você, por outro lado, acha que quer, mas é só porque te falta oferta. Tu tá na merda, é um ciclo: Nunca vai saber diferenciar e vai correr atrás de quem não quer; e esse tipinho percebe a diferença. Nenhuma chance.
                E a garota, que tinha nos olhos a preocupação de quem sabe que é constantemente observada, num cacoete, cata um celular na bolsa e se aferra no aparelhinho. Dá uma ajeitada no cabelo pro lado.
                - E ela é lésbica. Ou bi. Esse cabelinho colorido, essa carinha bonitinha de quem tem medo de homem não deixa enganar. E é do pior tipo, daquelas que faz a coisa só porque tá na moda. Se aproveita que é socialmente... “higiênico”.
                - Credo, cara. Tomá-no-cu que você consegue ver tudo isso só olhando pros cornos dela.
                - Deixa de se fazer de politicamente correto, mané! Isso daí pega muito mais buceta que você; e é tanta que já nem liga: Trata sexo como se fosse um brinquedinho.
                - Pelo menos isso conta como vantagem pra mim, né. – e forçou um sorrisinho torto.
                - É, e ela deve ter a “bússola estética” tão descacetada que até você conseguiria alguma coisa.
                O assunto morreu e os dois se mantiveram calados durante a maior parte do restante da viagem. Quando enfim se despediram com um aperto de mão e ambos, aliviados pelo que obrigava a situação, separaram-se, o segundo, após breve aceno ao amigo que já se encontrava na calçada, voltou a se concentrar a atenção na moça. E muito admirado estava quando, ao caminhar até a porta da frente do ônibus para saltar, a viu se levantar. “Então é isso! Ela desce no mesmo ponto que eu!”
                E acompanhou com os olhos, extasiado, a suavidade da garota ao virar a esquina e desaparecer.

                Na semana seguinte lá estava ela de novo, no ônibus. E como a via carregando alguns cadernos, concluiu que também era estudante. O rapaz passou a esperar vê-la entrar sempre que passava em frente àquele ponto quando voltava das aulas, mas com o tempo descobriu que ela o fazia somente às quartas-feiras; mas como já havia desenvolvido certa compulsão, independente de quando fosse, não conseguia evitar uma olhadela esperançosa pela janela quando passava pelo trecho em frente à igreja.
                Cultivava a ideia de abordá-la sem mesmo ter planejado fazê-lo, em segredo que mantinha longe de si próprio; ideia que cresceu por negligência do jardineiro em podá-la, e ganhou força suficiente para tornar-se sua concretização urgente e inevitável. Ele sabia que isso contava contra ele, que era quase uma garantia de que poria a coisa em prática de qualquer jeito. Então tentou elaborar algum discurso, mas tentar adiantar as respostas da garota tornavam tudo muito complicado, e isso, ele também tinha consciência, só aumentava as chances de pôr tudo a perder.
                O único suspiro de alívio de toda a situação foi que ele começou a achar que ela agora também já o havia notado com sinais de simpatia. Mas talvez fosse sua imaginação contaminada, pensava.
                O rapaz era excelente desenhista e tinha ótima memória para rostos, então pensou que seria boa ideia fazer um retrato dela para presenteá-la. Parecia uma boa forma de contornar o problema das palavras e minimizaria as chances de assustar a garota: “Imagine só, ser abordada por um completo estranho no meio da rua!”

                Ao que se aproximava o fim do semestre, a o assunto o preocupava cada vez mais. Foi quando a menina entrou no ônibus e deixou cair um caderno que não se fez ouvir sobre o metal em relevo. O rapaz o apanhou e fez que ia devolver, mas quando percebeu que ela não tinha se dado conta, olhou em volta e, certificando-se de que ninguém mais além dele tinha visto o que se passou, recostou-se lentamente e esperou a moça se sentar.
                Com a maior discrição, folheou algumas páginas. Descobriu que se tratava de um diário, e avançou até o ponto que narrava o período em que passaram a se cruzar. Não demorou muito, descobriu que ela de fato notara sua existência, e mais: também cultivava o desejo de conhecê-lo, e o expressava com a passividade de quem espera que algo aconteça, uma leve melancolia em lugar da ansiedade que consumia o rapaz, que agora quase não conseguia conter sua excitação, que beirou o insuportável com a súbita constatação de que usaria o caderno como pretexto para aproximar-se dela, e que então o devolveria com o desenho dentro. Porém, o desenho estava em sua casa, guardado e ele não havia, até aquele momento, decidido finalmente entrega-lo. Guardou o caderno com a resolução de fazê-lo na semana seguinte.
                Já em casa, ao deitar-se no sofá, pôs-se a ler mais do diário. Descobriu, com amargura, que a garota ia se mudar em breve pra outro Estado.

Na semana seguinte, a garota não apareceu.
Ele ainda se lembrava de como ela se movia quando virou a esquina pela última vez.

Marcelo, 9/2/12, Niterói - RJ

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Surpasser

Bom, esta será uma postagem bastante peculiar. Acho que pela primeira vez vou postar neste Blog algo que não é nem prosa, nem poesia, e sim um texto, digamos, técnico: regras pra um jogo de cartas criado por mim, que também utiliza dados.
Este jogo é em boa parte inspirado em jogos de cartas colecionáveis, como Magic - The Gathering.
Bom, sem mais delongas, quem se atrever, leia, apreenda as regras, jogue, e se gostar passe a ideia adiante. Ei-lo:


                                       Surpasser

Número de jogadores: 2
Componentes necessários: Dois baralhos de 54 cartas completos, incluindo Coringas; dois dados de 6 faces.

Objetivo do jogo:

Constituir um exército formado por 6 Soldados. Ou seja, deve haver em jogo ao menos 6 Soldados de um mesmo exército em um mesmo momento.

Função das cartas:

A diferença de naipe entre as cartas é indiferente.

6-10: Soldados
            - Ataca Soldados inimigos localizados imediatamente à sua frente.
- O número contido na carta representa suas forças de ataque e defesa.

2-5: Cartas-Bônus Numeradas
- Podem representar bônus que são somados à força de ataque ou de defesa de um Soldado. Quando aplicada, uma Carta-Bônus permanece sobre o a carta representando o Soldado até que o mesmo seja destruído.
- Cartas-Bônus que representam um ganho no ataque devem ser dispostas na mesma direção dos Soldados, sobre os mesmos um pouco abaixo, para permitir que o valor dos poderes do Soldado esteja visível. As Cartas-Bônus que aumentam a defesa dos Soldados devem ser posicionadas obliquamente a estes.
- Não pode ser aplicada a uma carta que já esteja relacionada a qualquer outro tipo de bônus (Rei ou Coringa).
- Somente uma carta bônus pode ser atribuída a um determinado Soldado.

Valete:
- Vira uma carta do inimigo, desabilitando provisoriamente sua função de ataque e qualquer bônus de defesa que esteja eventualmente relacionado à mesma.
- Seus efeitos permanecem até que a mesma seja desvirada ou destruída.

Rainha:
- Exerce função oposta ao Valete, desvirando cartas do jogador e reabilitando seu ataque e eventual bônus de defesa.

Rei:
- Diferente do Valete e da Rainha, a carta do Rei funciona da mesma forma que as Cartas-Bônus Numeradas ou Coringas, tornando um Soldado mais poderoso. Porém a vantagem adquirida pelo Soldado ao qual a carta do Rei é aplicada é a capacidade de atacar alvos que não estejam somente à sua frente.
- Deve ser disposta sobre um Soldado, na mesma direção.
- Não pode ser aplicada a uma carta que já esteja relacionada a qualquer outro tipo de bônus (Carta-Bônus Numerada ou Coringa).

Coringa:
- Bônus aplicável a um Soldado que lhe permite atacar, de uma só vez, todo o exército inimigo com um só golpe.
- Deve ser disposta sobre um Soldado, na mesma direção.
- Não pode ser aplicada a uma carta que já esteja relacionada a qualquer outro tipo de bônus (Carta-Bônus Numerada ou Rei).

Ás:
            - Remove um bônus qualquer de um Soldado inimigo.

Início de partida:

Cada jogador deve jogar um ou dois dados e comparar seus resultados. Aquele que obtiver o maior número deve ser o primeiro a jogar. Em caso de empate nos dados, um novo lançamento deve ser feito até que números diferentes sejam obtidos para cada jogador.

O primeiro jogador deve sempre alinhar suas cartas à sua esquerda, e o segundo jogador à sua direita.

Dois baralhos devem ser misturados e organizados em um único monte. Cada jogador deve retirar para si 3 cartas do topo do monte.

Ciclo de jogo:

O ciclo de jogo consiste em etapas cumpridas em determinada ordem cada jogador, cada um na sua vez, e deve se repetir até que um dos dois atinja o objetivo do jogo.

1 - Troca de cartas
Nesta etapa o jogador decide quantas cartas pretende jogar fora, caso haja cartas em sua mão e ele deseje fazê-lo. Ele pode se desfazer de quantas cartas quiser (de nenhuma a três cartas), e a seguir deve retirar do monte para si uma quantidade de cartas de forma que o número de cartas em sua mão ao final desta etapa seja 3.

2 - Jogadas
Este é o momento em que as cartas que o jogador desejar pôr em jogo podem ser colocadas na mesa.
O jogador pode colocar quantas cartas forem possíveis na ordem que desejar.

- Soldados podem entrar em jogo a qualquer momento e devem ser dispostos verticalmente, lembrando-se sempre de seguir o alinhamento correto, à esquerda ou à direita, de acordo com a ordem estabelecida no início da partida.
- Cartas-Bônus Numeradas, Reis ou Coringas só podem ser usadas em Soldados livres de qualquer bônus. Devem ser colocadas sobre os Soldados e assim permanecerem até que o mesmo seja destruído ou que o inimigo as remova utilizando um Às.
- Valetes necessitam de Soldados inimigos presentes a quem se deseje incapacitar provisoriamente. Devem ter seu alvo anunciado e então ser descartadas.
- Damas só se fazem necessárias quando houver cartas do jogador que precisem ser desviradas. Assim como o Valete, devem ter seu alvo anunciado e ser descartadas.
- Ases precisam de Soldados inimigos com bônus que se deseje remover. Do mesmo modo que é feito com Valetes e Damas, têm seu alvo anunciado e são descartadas.

3 - Ataques
Todos os Soldados do jogador que estiverem aptos a atacar devem atacar. Soldados aptos a atacar devem se encontrar desvirados (em sua posição original vertical), diretamente à frente de um Soldado inimigo ou fortalecidos por um Rei, que os permite atacar qualquer alvo.

O jogador cujo exército estiver alinhado à esquerda, deve sempre atacar com seus Soldados da esquerda pra direita. Por sua vez, o jogador cujo exército se coloca à direita deve fazer o mesmo no sentido oposto.

            O ataque se dá da seguinte forma:

1 – O atacante joga dois dados e soma o número obtido à força de ataque do Soldado, mais qualquer eventual bônus.
2 – O defensor também joga dois dados e soma o resultado à força de defesa de seu Soldado. Se o Soldado que está sendo atacado tiver sido virado por um valete, este se encontra provisoriamente incapacitado e qualquer bônus de defesa não poderá ser somado ao valor obtido nos dados.
3 – Se o atacante obtiver uma soma total maior que o defensor, o Soldado atacado é destruído e deve ser descartado junto com qualquer eventual bônus. Do contrário, nada mais acontece e o Soldado seguinte deve iniciar seu ataque.

Ataque com carta fortalecida por Coringa:

O ataque segue os mesmos passos de um ataque normal, exceto pelo fato de que um único ataque é direcionado a todos os Soldados inimigos. O lado defensor deve somar às forças de defesa de cada um de seus Soldados o número obtido em um único lançamento de dados. Os resultados das somas deverá ser considerado normalmente, e os Soldados que falharem em se defender devem ser eliminados.

            Ataques devem proceder até que não haja mais nenhum Soldado apto a atacar.

4 - Realinhamento
É provável que após alguns combates Soldados inimigos sejam removidos do jogo e com isso, um espaço vazio permanece onde antes eles ficavam. Estes espaços vazios, se houverem, devem desaparecer antes que a vez do próximo jogador tenha início. Para tal, deve-se simplesmente relocar todos os Soldados sobreviventes de acordo com o alinhamento designado ao jogador em questão.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O catador de lixo


M. vivia com sua velha mãe num apartamento alugado, num prédio de cinco decênios, no centro da cidade.
Todos os dias, M. descia os 48 degraus de pedra que separavam a velha porta cinzelada (com aldrava em halo) do piso em granito xadrez da portaria. Todos os dias, M. ia até os territórios esquecidos, nos limites da cidade, onde passava horas em verdadeira solidão, entretido com aquela atividade que o acompanhava desde que podia se lembrar; e quando voltava – já sob os postes cercados por cúmulos de cupins – adentrava o velho conjunto e, cuidadosamente ocultando aquelas tralhas atrás do corpo, que mantinha entre o braço esquerdo e o porteiro, como um criminoso escondendo o saque, apertava o passo e passava sem olhar nem dizer palavra àquele conjunto de nariz-olhos-e-boca-com-bigode; retirava do bolso a chave oxidada, cruzava as plangentes dobradiças, e se enfurnava no quarto.
Lá dentro, se punha a dar forma noturna àquilo que durante o dia havia recolhido do lado de fora. Estantes e mais estantes estavam abarrotadas de monstros metálicos, organismos plásticos, pesadelos alados, lágrimas congeladas no olhar cego de um eremita, as patas calosas de um grifo de bicos extirpados, que segurava um coração que jorrava uma cascata incessante de suco de caju – esculturas ocultando em sombras um relógio de parede que explodia parado e confuso, enquanto a janela fechada mantinha distante tudo que não importava, e que ele nem se dava ao trabalho de considerar supérfluo: a mesma ignorância que permitia que, naquele instante, se pegasse tão feliz, embora pressentisse que logo precisaria de algo mais, que a insatisfação não iria tardar a invadir aquele quarto, adentrar as cobertas, fazer cócegas em seus pés, eriçar os pelos de suas pernas, se enfiar pelas narinas e finalmente destruir tudo o que se interpusesse, como que só pra comunicar, com total indiferença, que as coisas apenas tinham que continuar inconstantes, porque o arrebatamento da solução absoluta é simplesmente movediço e, portanto, perigoso.
Na sala de estar, diante da TV, sua mãe costurava o uniforme do finado Sr. M., homem que ocupara posição de grande importância nos canais governamentais, graças a quem se podia comer e viver através de uma pensão modesta e honrada. Todos os dias, antes de vestir a camisola azul, ela guardava o uniforme no estojo – depois de dobrá-lo cuidadosamente e, olhos cheios de lágrimas e fronte contorcida num meio-sorriso triste, lembrar-se com saudade de tempos que quanto mais distantes se faziam, tanto mais gloriosos e áureos, seguindo-se um estalo de consciência como quem se dá conta de ter tido pensamentos censuráveis – e se retirava para seu próprio quarto. Depois, quando já era dia e a claridade invadia o apartamento, era sempre possível enxergar um novo ponto do uniforme onde parecia ter surgido do dia pra noite um rasgo necessitando sutura.
A M. não agradava permanecer em casa na presença da mãe, uma vez que a cada agulhada que atravessava o uniforme, era como se o ponto lhe fosse aplicado diretamente no espírito. Não era segredo nenhum, aliás, que ela sonhava que um dia ele mesmo viesse a vestir tais andrajos, tal qual um morto-vivo que se erguesse triunfante do túmulo para substituir com o mais alto conceito de hombridade aquela criatura vergonhosa que se esgueirava por aí carregando o que ninguém mais desejaria possuir como se carregasse um tesouro fosco. Tal anseio da mãe, ele não se dava conta, o ofendia profundamente, e o angustiava a constante sensação de que conspiravam para destituir-lhe de si mesmo a todo o tempo. A atividade de M. não servia propósito pragmático nenhum, e talvez por isso mesmo o fizesse sentir-se tão bem: ele sentia que se não o fazia para satisfazer exclusivamente as vontades de outrem, então agia com espontaneidade e, portanto, era vivo. Daquela atividade aparentemente inútil, ele extraía o seu esquálido orgulho, que algumas vezes conseguia até elevar a uma ponta de arrogância e se enxergar como se fosse o único boi fugitivo do matadouro contra o fluxo da manada.
Por outro lado, experimentava grande constrangimento quando, ocasionalmente, principalmente ao retornar de suas expedições, cruzava com a vizinha, a Srta. W, na escadaria. Quando se davam esses encontros casuais, ela lhe cumprimentava com o mais amável dos sorrisos, ao qual ele se esforçava ao máximo para espelhar. O caso é que ele a considerava linda e inatingível; estava apaixonado pela Srta. W, simples assim. Às vezes no quarto, à noite, antes de dormir, ele ficava de olhos abertos pensando em convida-la para sair, mas não conseguia imaginar para onde poderia leva-la. Ele achava que para onde quer que a levasse (sendo otimista o suficiente para considerar que ela aceitaria sair com ele), a deixaria entediada, ou pior, diria algo inapropriado e para sempre a faria repeli-lo. A simples ideia de interagir com a Srta W. o aterrorizava: considerava-se um aleijado social crônico.
Uma ideia foi tomando forma na cabeça de M. sem que ele percebesse. Não teve início em nenhum dia em particular e talvez fosse abortada se lhe tivesse vindo todo o plano à consciência antes que já o tivesse posto em prática. Era um projeto demorado, que demandou mais incursões às terras dos tesouros foscos do que qualquer outro: primeiro a forma geral, ovoide, depois as sutilezas, que tomaram mais tempo e necessitaram de componentes mais difíceis de garimpar.
Quanto mais avançava no projeto, mais exaustivas e menos recompensadoras se tornavam suas empreitadas. Já não sentia mais como se fosse ele o senhor das quinquilharias que colecionava; sentia-se como se ele mesmo estivesse se tornando, aos poucos, um objeto.
Era já tarde da noite e ele se forçava a trabalhar sem parar. Aquela seria a noite em que seriam ajustados os toques finais dos alicerces de algo excitante e desconhecido, cujo engendro o havia escravizado por semanas. Enfim, estava tudo no lugar: nariz-olhos-e-boca-com-bigode. Ele se sentou diante do espelho, olhou para si com um saudosismo antecipado no olhar, se despediu emudecido, hesitou ainda e finalmente vestiu a máscara.
Foi até a sala de estar e, sem saber bem porque, tirou o velho uniforme e experimentou e foi logo conferir o próprio reflexo no espelho. A princípio ficou sobressaltado ao enxergar no reflexo o próprio pai... logo a figura do pai se fundiu à da mãe, e até mesmo a Srta. W. tornou-se parte da composição. Experimentou alguns movimentos e viu que o espelho o imitava, e o pensamento de que era ele que na verdade imitava o espelho surgiu e foi sufocado num único instante.

Depois dessa noite, M. nunca mais voltou àquelas andanças, que agora se haviam tornado enfastiantes. Seu caminho seguia agora um fluxo direto e fixo, e ele passou a construir para si uma história cujos capítulos se complementavam, onde projetos tinham propósitos e serviam de base para projetos maiores.
Ele abriu a janela do quarto e viu pela primeira vez o que havia lá fora: uma árvore no quintal, velha e seca, e nela uma folhinha que tremulava no galho mais alto. Ele traçou com a vista todo o caminho da folha até a terra e pensou com certa melancolia em como um dia houve a possibilidade de aquela folha ter crescido em qualquer outro galho, mas agora estava presa ao seu destino. Talvez, em outro galho, a folha não teria sido a mesma, afinal.
A mãe de M. passou a se orgulhar muito do filho, e morreu satisfeita pouco depois do casamento entre M. e a Srta. W., que se deu dentro dos moldes tradicionais, abençoado por toda a comunidade, inclusive tendo como fato memorável, o porre – bastante engraçado, diga-se de passagem – do porteiro do prédio, que figurava entre os convidados. O casal teve um filho, a quem M. não negava esforços em guiar os passos, na melhor das intenções, dentro do amor ágape típico de um bom pai.
Embora estivesse, sob todas as circunstâncias mensuráveis, feliz ao lado da Srta. W., M. nunca teve para si a mesma Srta. W. que tantas vezes fecundou os mais suaves de seus sonhos, agora misericordiosamente esquecidos: aquela Srta. W. só podia ser vista sem o filtro de sua máscara, e sempre foi e sempre seria inatingível ao M. cujo espírito ainda catava lixo em um tempo que para sempre explodia, imóvel.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Descrição de sonho ocorrido entre 9:30 e 13:00 do dia 30/11/2011

Sou o primeiro em uma fila de elevador. Logo atrás vem um grupo de homens de aparência suspeita me vigiando, mas tento me acalmar, ponderando que eles talvez o façam por notarem nos meus modos alguma extravagância. Assim que as portas se abrem, avanço para entrar, mas logo percebo que o elevador está quase cheio e que as pessoas que estão lá dentro – um homem em particular, no centro do elevador, que grita alguma coisa para os homens que estão do lado de fora aguardando atrás de mim – estão querendo sair, e por um momento tenho a impressão de que estão querendo sair com impaciência. Imagino que a impaciência tenha alguma relação com o que gritou o homem. Como eu já havia tomado a iniciativa de entrar, esses pensamentos, que ocorreram muito brevemente, me surpreenderam a tal ponto que não puderam se assentar em minha mente o suficiente para que eu pudesse me refrear, e portanto continuei em direção ao interior do elevador, ainda que contra o fluxo de pessoas que desejava sair apressadamente.
            Dentro do elevador, percebo que em um ponto atrás da minha cabeça, do lado direito latejava uma dor distante, como que atenuada por alguma embriaguez. Passo a mão a fim ver se há sangue, mas meus dedos estão secos. Noto que nem todos os homens que estavam atrás de mim na fila do elevador entraram, mas ainda havia espaço para mais ocupantes.

Através de um vidro, que agora mais parece uma janela do que uma parede de um elevador que agora mais parece um ônibus, vejo a casa de uma tia, onde eu estava hospedado. Dou o sinal, e o elevador/ônibus para um pouco adiante. Mantenho a todo tempo os olhos atentos no trecho entre a casa da minha tia e o ponto onde saltei, memorizando o que vejo. Desço e começo a trilhar o caminho de volta. Avisto uma velha e, mais adiante, um velho, ambos vindo em minha direção, porém distantes um do outro. Cruzo com a velha no meio de uma escadaria de concreto, de degraus alongados e largos, ladeada por uma floresta, e ela me surpreende gritando palavras intimidadoras e de precaução irônica. Aperto o passo em direção à casa, que agora se habita minhas ideias na forma de um hotel. Corro até lá como se fugisse da própria sombra, como se algo etéreo me perseguisse, olhando pra trás de quando em quando, apenas para perceber que não há ninguém, mas que ainda assim uma presença inexplicável não me deixa só, como se ao chegar na casa/hotel, eu ultrapassasse uma barreira invisível na qual algo essencialmente maligno e desconhecido não pudesse penetrar e me atingir.

            Chego ao hotel e logo avisto a piscina, repleta de gente, cercada por um tablado sobre o qual repousam os hóspedes, com seus bronzeados, em suas espreguiçadeiras, entre seus óculos escuros, toalhas de banho, filtros solares, chapéus de palha, sombrinhas. Ao fundo, o mar, e envolvendo todo o ambiente um céu de poucas nuvens regido por um sol ofuscante. O contraste com o ambiente carregado de sombras do qual eu acabara de sair, no meio da floresta, se torna evidente. A sensação de segurança faz com que o perigo desapareça por completo, junto com toda a lembrança da cena anterior, que agora se tornara inócua, desprezível, desnecessária, de modo figurar agora somente entre o conjunto de memórias distantes e adormecidas, o qual permanece em minha mente menos por necessidade prática do que por algum capricho misterioso, consequência de sua natureza estrutural.

Em uma passagem deserta, como uma viela que tivesse surgido ao tomar subitamente uma direção a esmo naquele desconhecido hotel, vejo, ao nível do segundo andar, uma porta que dá desconcertante e diretamente para a rua. Escalo umas escadas amarelas que terminam uns 5 metros à direita da porta, e daí em diante sou forçado a me esgueirar rente à parede externa do edifício, sobre uma marquise com menos de 30 cm de largura.
            Entro em uma espécie de antessala de algum consultório. Na parede oposta há uma porta, um sofá cor de terra, uma mesa de centro, além de outras pessoas; mas de todas elas, a única que me dou por notar é um bebê, estranhamente desacompanhado – fato que naquele momento me passou totalmente despercebido –, cujo olho direito parecia torto, meio caído, dando-lhe um aspecto de doente mental, dúvida que era fortalecida pelo fato de que pouco conheço do que um bebê é capaz ou não, e portanto não sabia se o que via era produto de retardamento ou apenas do comportamento típico de um bebê.
            Uma mulher entra pela porta exterior, se dirige ao bebê, o pega no colo e o leva embora. Quando me dou conta, estou sozinho na antessala.
            Resolvo matar minha curiosidade e espiar o que há por trás da porta do consultório, mas para minha surpresa não encontro nada semelhante a um consultório: tudo o que vejo é um pátio a céu aberto, de paredes altas e enegrecidas, como se estivessem imundas ou tivessem sido carbonizadas, numa das quais se via pendurado um quadro representando Jesus crucificado. No canto oposto à porta, à direta do quadro, havia um tanque de lavar roupas, em cuja borda pendia algum tecido ensopado manchado de sangue.
            Retorno à antessala e fecho a porta do consultório atrás de mim, a tempo de ver surgir da entrada o casal de velhos com quem eu antes havia cruzado na floresta, escoltando uma jovem de cabelos castanhos cacheados que parecia um tanto assustada.
            Sem dizer palavra, eles a deitam em um sofá e a amarram de modo que ela de lá não possa sair. A moça se encontra em um estado de desamparo tal, que não tenta sequer gritar e mal se manifesta contra sua situação, se detendo a me lançar um olhar indecifrável.
            O casal de velhos pega, cada um, um martelo e se dirige à jovem, que por sua vez começa a mostrar sinais de desespero. A velha me olha como quem diz: “Retire-se e ignore o que está para ocorrer nesta sala, evitando, assim, que o destino dessa jovem também seja o seu.”
            Dirijo-me à porta, dou uma boa olhada do lado de fora, vejo a marquise e me lembro de que estou no segundo andar. Percebo que para sair dali, seria forçado a me mover lentamente, com muito cuidado para não cair: percebo que é um lugar localizado de modo a dificultar uma fuga, e só então fica claro pra mim que a jovem não vai conseguir fugir por conta própria e que em seu olhar havia um pedido de salvação.
Olho novamente para a antessala e os dois velhos já se encontram de costas pra mim, concentrando-se na jovem, cujos ossos, eu tenho certeza, estão prestes a serem esmagados a marteladas. Imediatamente, ao ver aquela cena, me lembro do quadro de dentro do consultório, com Jesus crucificado, e um pensamento de que o sacrifício da jovem é desnecessário se manifesta dentro de mim, não em palavras, mas em repulsa. Nas pontas dos pés, dou pequenos saltos até me aproximar do velho, que não se dá conta da minha proximidade até que eu lhe tome o martelo da mão e lhe dê uma pancada na cabeça quase que de uma só feita. Nesse meio tempo, a velha, que também só então veio a notar minha presença, se vira e me ataca. Por algum motivo eu havia me esquecido momentaneamente que ela também estava armada, mas me recupero rapidamente deste lapso, a tempo de aparar seu golpe com o martelo que havia tomado do velho, que nesse ponto está caído no chão lutando para manter-se consciente. Ao golpeá-la, acerto-a no olho direito, e, com assombro, vejo-a transformar-se, num piscar de olhos, no bebê retardado.
A jovem, a velha e o velho não mais se encontram na sala. Ouço alguém abrir a porta do consultório, e me apresso em esconder o martelo sob a mesa de centro, envergonhado.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fuga

A criatura era só dentes e olhos. Olhos de cobra. Eles me seguiam como dois faróis. Eu só podia estimar o tamanho do seu corpo pela fraca silhueta que recortava o azul-escuro do céu. Era enorme, devia ser alto como um prédio de 3 andares. Foi só quando aquela coisa avançou e se aproximou que pude ver os braços, longos, com mãos grandes e dedos compridos que terminavam no que pareciam estacas curvas que tinham acabado de ser lustradas. A pele era cinza e parecia muito resistente.
Eu estava correndo e meus pés faziam um barulho ‘ploft! ploft!’ engraçado na neve, quando afundavam um pouquinho e depois se desenterravam; mas é claro que na hora eu nem notei nada disso: enfiei-me pela primeira porta aberta que vi pela frente e continuei correndo. Estava muito escuro; mas graças a uma já há muito adquirida intimidade com essas noites balzaquianas, nenhum esforço demasiado era exigido de meus olhos cerúleos.
Ouvi o barulho da parede atrás de mim se quebrando; não quis olhar, apenas continuei correndo o mais rápido que pude. Eu percorria os cubículos, de modo a fazer com que meu acossador fosse retardado pelo concreto. Mas ele atravessava as paredes como se fossem feitas de isopor. Mudei de direção várias vezes e já não fazia idéia pra onde estava correndo. Por acaso, deparei-me com uma escadaria e galguei os degraus, de 3 em 3 – foi difícil não tropeçar. Tive que forçar minha concentração: estava tão nervoso, que o próprio conceito de ‘degrau’ tornara-se impensável.
Logo eu havia alcançado a cobertura e estava novamente debaixo do grande domo azul-escuro, mas achei que não era hora de parar ainda, por que, mesmo que eu agora julgasse tê-lo despistado, era evidente que o prédio havia sofrido dano suficiente para ir abaixo: era só questão de tempo até os alicerces cederem por completo.
Olhei em volta e percebi que havia entrado em um prédio de esquina; então dois lados do prédio davam pra rua, e é claro que estava alto demais para pular, e os prédios que faziam divisas com os outros dois lados estavam longe demais.
Então era isso: só me restava esperar até que aquela aberração assassina se cansasse e fosse embora; só me restava torcer para não me tornar os restos miasmáticos do jantar de uma manifestação digna de pesadelos, jogado no meio dos destroços de uma cidade deserta, escura e coberta de neve. Nem fodendo! Inclinei-me, afim de estudar a lateral do prédio à procura de depressões nas paredes que me permitissem descer, mas não havia nada, e as janelas eram espaçadas demais para que eu pudesse me agarrar de uma a outra. Então, eu vi uma luz surgir de uma esquina, e logo pude avistar um grupo de 2 homens e uma mulher que se aproximava.
            Uma vez eu havia encontrado um cara que havia me dito que esses bichos eram surdos, mas eu nunca havia posto essa afirmação à prova, de modo que, eu talvez até pudesse ter avisado àqueles incautos viajantes a respeito do perigo que certamente corriam, mas preferi não arriscar. Como resultado, logo eles estavam sendo pisoteados, desmembrados e devorados. Houve muita gritaria e sangue. Eles obviamente tentaram correr, mas haviam sido surpreendidos no meio da avenida e já estavam condenados desde o início.
A lanterna que um dos homens carregava caiu e ficou acesa por ali, muito depois da criatura já ter ido embora. Eu não carregava lanterna nenhuma e evitava andar sob a luz, sempre dava uma boa olhada antes de dobrar qualquer esquina, e preferia me manter nas calçadas.
Então me pus a descer até o nível da rua, mas tive que descer saltando de um nível ao outro, por que a chacina ambulante tinha quebrado toda a escadaria nos andares inferiores. Por fim, o lugar não ruiu em cima da minha cabeça e ainda estava lá quando dobrei a próxima esquina. Pensei em como tive sorte por ter encontrado a porta daquele prédio aberta. Estava frio.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mais fraco que um inseto caindo do teto

Me deixa desabar no colchão,
escutar minha voz abafada
e sentir minha cara amassada.
Me deixa,
que quando eu estiver mais calmo,
vou escutar teu riso na calçada,
vou levantar o rosto um palmo,
e juntar os cadarços
numa tremedeira apressada.

Vou me erguer e desabar novamente,
antes de me fazer ausente,
antes de deixar a casa vazia,
pisar na calçada fria,
botar os pés do lado de fora.
Antes de ir embora.

Minha sombra vai cruzar com a tua
no meio da rua.
Você vai se pôr a cantar,
e eu vou me limitar a imitar
os rostos em volta.
Vou entornar o copo e aplaudir,
talvez até consiga sorrir
e dançar até meu corpo falhar
de tanto mentir.

E quando a Noite se der por satisfeita,
quando eu tiver sido digerido por completo,
e estiver mais fraco que um inseto caindo do teto,
como um bagaço com pernas tentando me manter ereto,
finalmente poderei descansar a testa depois da festa.

Agora estou pensando nela.
Pensando nela na janela.
Meio ausente,
meio contente.
Vou passando
e tudo vai desmoronando,
as casas estão explodindo,
se silenciando,
as pessoas se tornam coisas,
vão se distanciando,
e as coisas vão ganhando vida,
se transformando,
enquanto eu destruo o mundo com minha imaginação.

Estarei de volta
com a cara enfiada no colchão,
até me dar conta
de que você ainda estará lá fora
me esperando,
fingindo que me ama,
e que eu nem terei saído da cama.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Eis a minha verdade - por Marcelo Fortuna


Eis a minha verdade, contra o fundo branco da tela, enquanto digito o que me vem à cabeça, depois de muito tempo sem escrever nada. Bom, nada que eu considerasse válido para dizer ao mundo. Por que, pelo menos num nível irracional, imagino que o mundo está prestando atenção, mas na verdade não está.
Eis a minha verdade, em preto e branco – ou assim acredito. Nela me apego, como um cachorro a uma panturrilha. Se você está se prestando a ler isso aqui, é bom que saiba isso de antemão: você tem a sua verdade, eu tenho a minha, e qualquer discordância entre as duas não é problema meu.
Nada contra o que quer que os outros tenham a dizer; às vezes é até prazeroso ouvir, como quem ouve a TV chuviscando. Mas aqui não é o lugar pra isso, não. Gosto dessa falta de interatividade. Se por um lado, pode ser entediante de vez em quando, por outro, é como correr livre por aí, de patins, quebrando coisas com um taco. O problema é que se eu faço isso pensando que alguém mais vai ler, já começo a me segurar. E aí vem um monte de problemas: começo a ficar ajeitando pontuação, gramática, me preocupando se vão me considerar doente mental, se o texto vai ficar agradável pra quem for ler... Se eu tiver sorte, percebo que estou fugindo ao meu propósito inicial ao escrever, que envolve ignorar qualquer propósito. Então eu penso: “Porra! Se eu ficar tão preocupado em agradar os outros, vou ficar escrevendo a mesma coisa que todo mundo já tá careca de ler; vou ficar caminhando em trilhas. E eu não quero caminhar em trilhas, eu quero é destruir a porra da floresta.” Pro caralho, quem achar que é esteticamente inaceitável que eu repita o mesmo palavrão no mesmo parágrafo, porra.
Ser criticado é uma merda, pode acabar com a autoestima de alguém, mas ser elogiado em demasia faz a gente parar de pensar. É como alimentar o já citado cachorro sempre que ele trouxer o jornal sem rasgar.
Por outro lado, pode se tornar indesejável abusar da autossuficiência intelectual, e acabar se tornando ininteligível. Se você quer ser ignorado pro resto da sua vida, basta começar a achar que todo mundo vai adorar ouvir as coisas que só você acha legal, como aquela sua cagada no banheiro da boate, quando o papel acabou e você teve que limpar o cu com a cueca embebida na água da privada.
Portanto, não é necessário se preocupar se você vai escrever ou não: se isso faz você se sentir melhor, faça; aproveite e desenhe uma pirocas no verso do papel. Só não precisa sair expondo aos quatro cantos todo e qualquer caroço de milho da sua diarreia mental. Eu, por exemplo, acho muito mais agradável escrever com raiva, me sinto muito mais honesto. Mas muita gente pode ficar ofendida com isso, e não adianta fingir que não me importa, por que a merda volta. Bom, nem sempre. Mas, eis um exemplo de masturbação literária:

“Outro dia, acordei de manhã, o que é raro, por que geralmente não acordo antes do meio-dia. Estava frio, mas era um dia de sol, o tipo de clima que mais gosto. Nesses dias, costumo me sentar na varanda do meu quarto e ficar contemplando o jardim por algum tempo. Todo aquele verde em volta, ouvindo as folhinhas balançando, sendo atingido pelo raios de sol que brilha entre elas, apagando e acendendo em sintonia com o vento. São tantas folhas, que não adianta contar, só me resta deixar os sentidos tomarem conta – sinto-me bem. A luz abraça tudo, tudo é amarelo, e eu mal consigo abrir os olhos; o choque térmico me faz estremecer na altura das costelas. Então, me deito no azulejo e olho praquele céu nu. Depois, fecho os olhos e fico ali um tempão perdido na escuridão laranja. Uns filetes esquisitos vão acompanhando o movimento dos meus olhos dentro das pálpebras. Sempre reparei nesses filetes esquisitos, tanto que já não são mais esquisitos pra mim, mas nunca soube o que eram; talvez sejam ranhuras no globo ocular ou micro-organismos na retina. Depois disso, olho em volta e tudo está meio sem cor, e assim permanece, por um tempo, meio azulado.”

Quem se importa com isso? É o tipo de coisa que eu podia guardar pra mim: vai de lugar nenhum a lugar algum. Talvez só eu ache isso relevante, ou ainda, talvez só eu consiga, ao ler, imaginar a cena em questão. No entanto, aqui estou, escrevendo, e estou quase certo de que vou deixar as pessoas lerem tudo isso depois. Mas tento não me importar, e não pretendo finalizar com um estouro.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Crítica - Dancem, macacos, dancem




Extremamente crítico, porém ingênuo em muitos pontos. Pretende ser genial através de um cinismo irrefletido. Sensacionalista. Esses foram meus primeiros pensamentos a respeito do vídeo intitulado “Dancem, Macacos, Dancem”, um vídeo que eu já havia visto há algum tempo circulando a Internet, mas que só agora fui assistir com olhos críticos.
A princípio, algo me incomodava nesse vídeo. Eu não sabia exatamente o que era. Então, tentei descobrir o que me desagradava tanto e cheguei a algumas conclusões. O texto que se segue é o que pude colocar em palavras a partir do desconforto que me causava assistir “Dancem, Macacos, Dancem”.

Primeiramente, seres humanos não são macacos mesmo. O Homo Sapiens descende da mesma ramificação daquilo que classificamos como macacos, mas segue outro caminho. Cada ser é diferente um do outro. Mas, realmente, em ao menos um ponto concordo com o vídeo, ponto este que parece ser o carro-chefe de toda a sua argumentação: de que a humanidade busca diferenças entre ela e os outros animais motivada por pura vaidade, apenas para se sentir superior. Acredito que muitos animais sejam providos de autoconsciência, principalmente os que têm cérebros avantajados. A cadelinha aqui de casa, por exemplo, sonha e se mexe bastante enquanto o faz. Além disso, chimpanzés têm polegares opositores também. Mas, em sua parcialidade, o vídeo não consegue evitar se contradizer e logo declara que a humanidade difere dos demais animais por sentirem-se tristes. Ora, tristeza e felicidade fazem parte da vida de qualquer animal de inteligência razoavelmente bem desenvolvida. Prazer e dor são impulsionadores primários de toda ação.
O narrador fala com grande ressentimento das consequências de se ter uma inteligência altamente desenvolvida, como se ela fosse a causadora de todo o sofrimento que existe em nós. Em determinado momento, tem-se a impressão de que o vídeo advoga em favor da doutrina cristã do pecado original, que teria condenado a humanidade a ser expulsa do paraíso por ter comido do fruto proibido da árvore do conhecimento. Doutrina essa que é criticada em outro ponto do vídeo, obviamente, sem nenhum argumento razoável.
Pessoalmente, admiro tentativas de melhorar alguma coisa, aperfeiçoar, mesmo que isso traga inconvenientes imprevistos, e acho que é nisso que se traduz a história da humanidade: coragem para buscar algo melhor, de sair da ignorância. A civilização pode ter criado um monte de problemas, mas há de se admitir que é necessária uma boa dose de coragem para modificar a natureza em nosso favor, e não simplesmente deixar que ela nos subjugue. Não somos seres passivos, somos inconformados até mesmo com a morte, e acho isso admirável.
É quando o vídeo resolve nos criticar comparando-nos aos animais e, numa tentativa de inverter o jogo, tenta nos inferiorizar a eles, que ele perde totalmente a razão. Isso por que soa imaturo, usa o mesmo princípio que crítica como arma para provar seu ponto.
É patético o modo como o vídeo desdenha de várias criações da humanidade, que, mesmo simbólicas, em alguns casos, enriquecem o sentido de nossas vidas. Essas sim, nos diferem dos demais animais e são dignas de reconhecimento. “Como se isso significasse algo.”, ao se referir aos troféus, é uma frase, no mínimo, lamentável, por que parte do pressuposto de que é possível encontrar significado objetivo nas coisas, demonstrando uma falta de sensibilidade profunda dos realizadores.
Há também uma crítica à violência ali. Acho muito bonito criticar a violência, mas violência é parte da natureza, até mais frequente entre os demais animais do que entre humanos. O que muda, realmente, são as motivações. Sim, nenhum animal mata o outro por não acreditar no mesmo deus que ele. Mas ódio? Muitos deles são capazes de odiar sim, só que é um ódio mais imediato, sem preconceitos, até porque, preconceitos, por mais estúpidos que possam ser, exigem uma inteligência mais elaborada. Posso afirmar que, ao menos, os humanos são os únicos que se preocupam com a violência e buscam formas de contorna-la.
No final, fiquei com a sensação de que quem realizou o vídeo não é diferente daqueles que julga não saberem pensar por si, as tais pessoas que leem Nietzsche e ficam discutindo Nietzsche, como é dito no próprio vídeo.