Quinta-feira, 29/03/2012
Levanto-me da cama e sigo em direção ao banheiro. Quando lá chego, a porta se encontra fechada. Sem saber se a mesma está de fato trancada, experimento bater e esperar: não há resposta. Abro-a lentamente e flagro um menininho indiano, de pé, com ar preocupado, olhando em direção à porta. Com uma mesura, me desculpo e me afasto, ainda mantendo minha frente voltada a ele, compreendendo que o havia surpreendido em momento inoportuno; mas a criança anda, decididamente, em minha direção e, ao que me ultrapassa no corredor, olhar fixo em seu caminho, me deixa a entender, com modos autoritários, que devo segui-lo até meu quarto. Ele para diante da minha cama e deixa implícito que, em respeito a sua privacidade, devo permanecer ali até que ele tenha concluído o que estava fazendo quando o surpreendi no banheiro.
Sento-me à cama e, ao que estou em vias de me recostar, o pequeno indiano, já se retirando do quarto a passos largos de volta ao banheiro, resmunga para si mesmo, em volume suficiente para que eu possa também escutar, algo cujas palavras exatas agora já não me recordo, mas que em seu sentido poderiam significar o mesmo que “Eu não preciso aguentar esse tipo de coisa!”
Seu comportamento autoritário em conjunto dessa derradeira desfeita, me removem de meu temporário estado letárgico e dócil, vertendo conformidade em ira. Quem é este fedelho que, hospedado em minha própria casa, pensa poder impor suas necessidades à frente das minhas e ainda se sair com tamanha petulância!
Alcanço-o já à porta do banheiro e agarro-o facilmente pelos ombros estreitos, desprevenido e distraído que estava em sua arrogante autoconfiança. Retendo-o com um empurrão rancoroso, ultrapasso-o e fecho a porta atrás de mim, entre nós, trancando-a em seguida.
Lá de dentro, já me aliviando, posso ouvi-lo reclamar com sua mãe e a minha, distorcendo a história em seu favor. Preocupa-me ter de desmenti-lo com justificativas e palavras bem escolhidas de modo a ser capaz de transferir os fatos de volta à justiça e em meu favor, uma vez que seu apelo sob caráter infantil constitui, sob meu ponto de vista, considerável vantagem sedutora.
Sexta-feira, 30/03/2012
Uma raça alienígena está invadindo o meu planeta-natal. Acuado, meu povo se refugia em uma base até que seja concluída a construção de nossa nave de fuga: uma verdadeira metrópole móvel, com autonomia para cruzar o espaço durante séculos, até que encontremos um novo lar para nos estabelecermos.
A impressão que fica é de que a base onde agora nos encontramos é uma solução improvisada, algo talvez descoberto ao acaso em meio a essa paisagem de árvores altas e de pouca folhagem, de horizonte avermelhado como um contínuo por de sol.
A rotina diária parece consistir em montar defesas e barreiras para conter as imprevisíveis investidas dos belicosos aliens e tomar parte em expedições na superfície do planeta a fim de obter recursos para essas mesmas defesas e, mais importante, para a conclusão da construção de nossa espaçonave.
Durante quase todo o tempo, sinto o enorme peso de uma responsabilidade que não consigo cumprir, a responsabilidade esmagadora de dar alguma contribuição inteligente e útil aos demais de meu povo, que ao meu ver parecem ineficientes. Embora essa consciência de que seus métodos são pífios diante da ameaça que enfrentam, não consigo, eu mesmo, superá-los com qualquer contribuição, e permaneço estagnado em constante angústia. Suas armadilhas toscas feitas com lanças douradas e canos de PVC encontrados ao acaso, embora pareçam ineficazes, me dão a impressão de afigurarem como a mais adequada escolha possível dentro das parcas possibilidades que se nos apresentam.
E eu continuo sem contribuir.
Enquanto penso em organizar um pequeno exército para alargar nossas fronteiras e ganhar tempo em momentos de estabilidade, a consciência da responsabilidade que não desejo assumir sobre a vida de outros homens me desencoraja. Este seria um território onde eu jamais havia pisado e, diferente do modo como estou acostumado a proceder com tudo aquilo que ainda não sei fazer, nesse caso não poderia me dar ao luxo de falhar até que o resultado fosse satisfatório.
Conforme os dias passam, um barulho e uma luz vinda de cima parecem se tornar cada vez mais evidentes.
Então, as pessoas começam a desaparecer sem que eu consiga me dar conta para onde estão indo, como se estivessem se retirando às minhas costas, deliberada e metodicamente.
Quando me percebo só na base abandonada, o barulho muda de posição e a luz azul incide no galpão vinda de outra direção, através das grandes janelas translúcidas, largas como as laterais de um aquário para o leviatã. Saio apressado para ver o que sucede lá fora.
Enquanto no solo o inimigo aperta o cerco, no céu um gigantesco círculo metálico reflete, em sua base, o horizonte róseo. O casco pintado de branco é cravejado de pequenos pontos luminosos intermitentes azuis-claros, que circundam o centro, de onde emana uma luz sobre a terra em um feixe que atinge o solo sem esmaecer.
Em desespero, corro em direção ao círculo, buscando posição abaixo da linha de sua luz. Em resposta, ele desacelera, como que percebendo a presença de um dos seus, prestes a ser esquecido, como se suas entranhas de metal fossem capazes de compreender e se comover diante da solidão que se abateria sobre aquela pequena figura ao ser abandonada como única detentora, naquele lugar, de um legado que agora se destinava a rumar para as mais distantes paragens de um oceano de absoluta escuridão.
Com meu corpo agora suspenso no ar, o grande círculo branco-rosa cresce ante um fundo de nuvens em chamas. Ao divisar, então, cada pequeno componente que, em conjunto denunciavam sua verdadeira natureza mecânica, sou cegado por um branco puro. O silêncio é absoluto.
A brancura se dissolve revelando o interior frio, estéril, cinzento e seguro do meu novo lar.
